Ação russa em Zaporíjia representa risco de acidente nuclear superior à Chernobyl

0
40

Usina nuclear localizada na Ucrânia tem sido estratégica desde início do conflito contra Rússia e é alvo de acusações mútuas entre Moscou e Kiev. A usina nuclear de Enerhodar (Zaporíjia), controlada pela Rússia, vista da cidade de Nikopol, sob domínio ucraniano. Em 27 de abril de 2022.
AFP – ED JONES
O grupo do G7, que reúne as sete democracias mais industrializadas do mundo, acusou Moscou, nesta quarta-feira (10), de “colocar em risco” a região em torno da usina nuclear de Zaporíjia, ocupada por tropas russas, e exigiu a devolução da central à Ucrânia. Analistas ouvidos pela RFI destacam os riscos de um acidente nuclear que superaria a catástrofe de Chernobyl, uma ameaça que o Exército russo estaria consciente.
Na noite desta terça-feira (9), a operadora ucraniana Energoatom informou que as forças russas se preparavam para conectar a usina nuclear de Zaporíjia, a maior da Europa, à Crimeia, península anexada por Moscou em 2014. Porém, desviar a produção de energia para o sul da Ucrânia é uma operação arriscada, segundo especialistas, no momento em que a central nuclear de Zaporíjia se encontra no meio do fogo cruzado.
A usina nuclear localizada na Ucrânia tem sido estratégica desde o início do conflito e é alvo de acusações mútuas entre Moscou e Kiev. Os dois lados afirmam que o campo adversário bombardeou as instalações nucleares na semana passada, sem que nenhuma fonte independente pudesse confirmar essas alegações.
Na segunda-feira (8), o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, denunciou em uma entrevista coletiva no Japão o que qualificou de “ataques suicidas” visando o complexo nuclear. Ele pediu a suspensão das operações militares em torno da usina, para que a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) possa ter acesso ao local. 
Desde o início da guerra, a central nuclear é utilizada como base militar e esconderijo para tropas russas. “O Exército ucraniano não vão atirar contra essa central por causa dos riscos de um acidente nuclear”, explica à RFI Anastasiya Shapochkina, professora da Science Po Paris. “Os últimos anúncios do Exército russo informam que os militares presentes na usina estão conscientes dos riscos. Eles informaram sobre a instalação de minas terrestres em todos os seis reatores de Zaporíjia. Há testemunhos da presença de veículos militares russos e de munição armazenada perto de dois reatores”, acrescenta a especialista, que avalia a gravidade de um possível acidente em Zaporíjia superior a de Chernobyl. 
Fantasma de Chernobyl
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, citou o desastre de Chernobyl, ocorrido em 1986, para chamar a atenção internacional para o problema. O ministro ucraniano das Relações Exteriores alertou que se os bombardeios causarem a explosão da usina, seria dez vezes pior do que Chernobyl, episódio pode ter deixado mais de 4 mil mortos diretos, segundo dados das Nações Unidas, além das consequências sanitárias, ecológicas e econômicas.
“Toda a população adulta tem uma memória clara sobre o acidente de Chernobyl, pois muita gente foi mobilizada para combater o fogo ou reduzir as consequências da tragédia, operações que deixaram muitos mortos e feridos. Mas isso é muito mais claro na Ucrânia e em Belarus, país também afetado, do que na Rússia”, destaca Shapochkina.
“As manobras do Exército russo, formado por muitos jovens, demonstram que eles não têm essa lembrança, nem seus comandantes, porque eles fizeram escavações na terra radioativa, aumentando o nível de radioatividade 10 vezes, sendo que muitos acabaram sendo hospitalizados”, acrescenta a especialista.
Os países do G7 acusam Moscou de colocar em perigo toda a região e mesmo a comunidade internacional. “Exigimos que a Rússia devolva imediatamente ao seu legítimo proprietário soberano, a Ucrânia, o controle total da usina nuclear de Zaporíjia”, escreveu o grupo formado por Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, em um comunicado.
O texto foi divulgado pela Alemanha, que à frente da presidência do G7 em 2022. “É o controle contínuo da usina pela Rússia que coloca a região em risco”, acrescenta a nota. “Os funcionários ucranianos que operam a usina nuclear de Zaporíjia devem poder cumprir suas funções sem serem ameaçados ou pressionados”, alerta o G7.
O grupo se diz “profundamente preocupado com a séria ameaça” representada pelo Exército russo à “segurança” das instalações nucleares ucranianas. A sua ocupação por tropas de Moscou “aumenta significativamente o risco de um acidente ou incidente nuclear” e “coloca em perigo o povo da Ucrânia, os estados vizinhos e a comunidade internacional”, afirma a mesma fonte.
Para Dominique Trinquand, ex-chefe da missão francesa nas Nações Unidas, o objetivo dos russos de conectar a central nuclear de Zaporíjia à Crimeia, para abastecer todo o sul da Ucrânia, tem várias razões. “A Crimeia é estratégica para a Rússia primeiro por uma razão histórica, já que há uma reivindicação de pertencimento à Rússia. A segunda, é que desde 24 de fevereiro, data da ofensiva russa, as tropas russas da Crimeia foram determinantes para a conquista de Kherson e a ofensiva no mar de Azov. Além disso, o porto de Sebastopol é o grande porto russo para acesso ao Mar Negro” destaca o general.  
Na terça-feira (9) explosões em um depósito de munição em um aeródromo militar na península da Crimeia deixaram um morto e um ferido. “Hoje há o desejo russo de anexar toda a região que vai do Donbass até Kherson, usando a Crimeia como apoio”, conclui Trinquand.
A operação para conectar a produção de energia de Zaporíjia à Crimeia exigiria um corte nas linhas de alta-tensão para um religamento posterior. A agência nuclear ucraniana alerta sobre o perigo de uma operação como essa, pois os russos seriam obrigados a conectar temporariamente a central a geradores alimentados por diesel.
Aiea pede acesso a Zaporíjia
Com base em informações fornecidas pela Ucrânia, especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) concluíram que os bombardeios recentes perto de Zaporíjia “não representaram uma ameaça imediata à segurança nuclear”, conforme informou o diretor-geral da agência, Rafael Grossi.
Os dois ataques com foguetes ocorridos no final da semana passada – um deles lançado de uma área de floresta e o outro de uma zona urbana – resultaram em explosões perto de piscinas de resfriamento de material radioativo. A principal preocupação dos especialistas é de evaporação da água das piscinas, além do risco de incêndio.
Em um comunicado atualizado nesta quarta-feira, Grossi enfatizou novamente a necessidade de uma missão de especialistas da Aiea para visitar a usina o mais rápido possível. A Aiea não pode vistoriar as instalações desde o início do conflito, há mais de cinco meses.

Fonte: G1 Mundo